Carnaval - Irreverência Baiana
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Carnaval

Era um domingo ensolarado quando decidi que deveria gastar a energia acumulada depois de uma noite insone. Uma noite agitada em pensamentos confusos pediam café quente e fresco nas primeiras horas manhã, bem como um par de tênis nos pés. E assim comecei meu trajeto: alongando, energizando e correndo.

O GPS marcava a distância e velocidade; no asfalto negro um caminho com voltas nauseantes; na cabeça uma memória intacta para uma infância em pleno carnaval. Talvez os sinalizadores de festa nos postes e as estruturas metálicas dos camarotes tenham ajudado a resgatar involuntariamente o que passou. Sorria com o suor e inconsciente aumentava os passos.

Há vinte anos era uma menina com paixão platônica pelo cantor Netinho. O protagonista de músicas que marcou uma geração tinha o meu afeto. Por saber dos gostos peculiares, meus pais decidiram me levar no dia e hora marcada de sua apresentação. Ponto para mim.

Das poucas lembranças de carnaval, continuava sorrindo com a passagem que enxergava: eu, caneluda nos ombros do meu pai seguindo o trio elétrico cantando “Ô Milla, mil e uma noites de amor com você”. Quanto mais ele cantava e pulava no meio do trio, do lado de cá, eu acenava, fazia coro, soltava beijos e o coitado do meu pai ali, segurando o tranco e em comboio atrás do trio.

Enquanto a recordação bailava sobre minha cabeça, eu continuava a avançando sem cessar o percurso do carnaval. Animada, como em ritmo de festa. Passos largos, braços ritmados, músicas inteiras em meu repertório mental e um suor impiedoso escorrendo pelo corpo.

Arrisco dizer que os anos 90 e o auge do axé music fora a época mais divertida e sensata pelos blocos de festa de rua. Uma era sem maldade exacerbada, sem difamação, sem ataques homofóbicos ou machistas. Vivemos um tempo de alegria, de hits e coreografias marcantes. Salve o nosso axé!

O nosso carnaval ficava ali, entre o som exagerado do trio elétrico deixando-nos entontados de adrenalina e energia com o muso devolvendo os meus beijos atirados e cantando “Salve Salvador. Que bate, me quebra, tudo por amor. Eu sou do Pelô. o negro é raça, é fruto do amor…”

Correr atrás do trio, mesmo que de modo figurativo não é fácil. Concluí os dezoitos quilômetros do dia exausta com os olhos molhados, mas sorrindo como há vinte anos.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 04 de Fevereiro de 2017.

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