CHEGADA A CATEDRAL DE SANTIAGO - Irreverência Baiana
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CHEGADA A CATEDRAL DE SANTIAGO

Cheguei a Santiago de Compostela com uma certeza: a minha missão está cumprida. Depois da entrada da cidade, parecia que a Praça da Catedral não chegaria nunca, eu sentia que o fim estava em minha frente, havia um nó na garganta, no entanto os poucos quilômetros foram mais compridos do que todos percorridos ao longo do mês.

Não sei exatamente quanto tempo levei desde a placa decorativa com o nome da cidade até ao centro onde a vida peregrina se encontra. Talvez duas ou três horas que podem ser traduzidas tranquilamente em dias arrastados e demorados. É espontâneo, toda a dor fica anestesiada, as feições de angústia pela demora do fim se tornam sorrisos compartilhados. O corpo parece flutuar entre as subidas e descidas até a cidade de pedra.

A certeza de pisar num solo onde toda peregrinação se poria fim é o embalo de emoções inéditas, nem no parto de minha filha, nem no adeus da pessoa mais querida senti coisa semelhante,… Os olhos escorriam o sentimento de sonho realizado, um sonho tão meu que definitivamente ninguém compreendia os milhões de passos numa terra distante da minha.

As pessoas aceitam, poucas estimulam, algumas incentivam, mas nenhuma entende o que você foi fazer lá, nem quem já percorreu o Estranho Caminho. É simples, os motivos que nos levam até lá são categoricamente pessoais, que de tão nosso não há como expor de forma amplamente compreensiva, nem para nós. O caminho se resume a chamado, depois tudo são desculpas para caminhar.

Cheguei a Santiago de Compostela sem saber precisamente o que fui fazer ali, frente à imponente Catedral chorava piedosamente que sem demora fui acolhida por tantas pessoas que nunca havia visto: habitantes, outros peregrinos, turistas… Palavras gentis, de coragem, de força, sobretudo de certeza da vitória. Chorava pela fé despertada ao ver os meus pés sangrentos que me levaram tão longe sem nunca ter pensado em desistir.

O sonho às vezes vem com um brinde e participar da missa do peregrino ao meio dia, receber a eucaristia e sentir o gosto da carne e do sangue de Cristo dentro de mim, uma força tão violenta que caí de joelhos frente ao altar, amparada por francesas desconhecidas, senti o abraço de Deus em alguns minutos, na sequência o sonhado enorme turíbulo, também conhecido por botafumeiro me trouxe todas as realidades em sua fumaça: somos efêmeros!

Foram mais trinta dias dedicados a essa realidade peregrina. Num lugar onde o corpo envelhece mais rápido e que as experiências são bordadas como fios de ouro: fome, frio e medo que no trajeto se converteram em aprendizados. Ainda na madrugada deixei a última cidade para chegar à Santiago, caminhando dentro de floresta sofria por cansaços múltiplos, respirar doía. E com uma única lanterna presa na cabeça escutava os meus pés batendo o solo e despertando todas as sensações de uma vida. Inquietava por não saber como viver fora do Caminho e esse era o único medo que eu carregava.

Ainda não sei exatamente o que me fez percorrer o caminho de Santiago na sua rota mais longa e mais tradicional, não sei precisar tudo o que senti andando como o apóstolo Tiago, mas eu sei de todos os passos de Deus ao lado. Fechando os olhos sei com exatidão todos os momentos que o seu braço foi estendido para me confortar e das vezes que enviou anjos para me acolher. A única certeza que carrego é que em nenhum metro eu estive só!

Juliana Soledade

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