Desassossego - Irreverência Baiana
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Desassossego

Acordo cedinho, o dia mal havia se espreguiçado, no escuro do meu quarto continuo no leito e me ponho em oração. Junto às duas mãos como uma criança que acabara de aprender a rezar, abaixo a cabeça e começo agradecendo à boa noite de sono, a casa segura e tranquila, a saúde dos meus, a produtividade do trabalho, para logo em seguida, claro, pedir que o dia seja no mínimo igualmente excelente ao anterior.

Acordar significa correr uma maratona com um leão forte e musculoso vindo em sua direção até o momento de adormecer novamente. É o café da manhã para fazer, o filho para acordar vinte e oito vezes até resolver abrir o olho para ir à escola, é o trânsito alucinado ás 6:40 da matina e com todo mundo tendo prazo/horários a cumprir. A impaciência desperta cedinho, sem parar na faixa de pedestres e dando aquela “roubadinha” no sinal sempre que pode. Filho na escola? Ok, respira aliviada e corre para o trabalho. Bate ponto, reunião antes das oito. Pauta? Metas, óbvio! Logo ao final o chefe sinaliza, haverá corte no quadro. Ninguém consegue respirar fundo no primeiro turno. O almoço permanece intocável. A sensação de pode ser eu começa a soar como uma teoria da conspiração.

Não existem possibilidades para continuar alimentando as teorias possíveis. Bate o ponto, joga uma água no rosto, refaz a maquiagem e sigo para o outro emprego, outro turno, outros colegas, outras metas a cumprir. Logo na chegada, dois jornais em minha mesa com notícias aterrorizantes: “Goleiro Bruno com NOVE propostas de emprego” e “mulher possuída é queimada viva em Nicarágua”. Incrédula, preciso ler novamente. Respiro fundo e choro baixinho. Enxugo as lágrimas e tento em vão iniciar o trabalho.

Não dá para acreditar que um sujeito, cujo foi sentenciado por um crime bárbaro recebe Um Habeas Corpus e ao sair da cadeia é tratado como ÍDOLO, com direito a fãs, selfies e incentivo. Favor não confundir ressocialização com memória fraca. Favor não confundir segunda chance com notícias sensacionalistas apenas para beneficiar a quem torturou, matou e ocultou. Favor não confundir a falta de corpo com a ausência de crime, o crime jamais se limita ao de homicídio. No mínimo ele foi cúmplice de toda essa tragédia que destruiu famílias inteiras e ser cúmplice, meus caros, é ser igualmente assassino em potencial.

Os machistas de plantão querem puxar a ficha regressa da moça como se ela fosse menos mulher por ter sido garota de programa, por ter tido um filho com um famoso ou por chantagear pensão para manter o garoto. E essas mesmas justificativas são levantadas quando alguma mulher próxima de nós é agredida, é violentada e é morta.

A sociedade só pensará diferente quando os pais ensinarem verdadeiramente aos seus filhos o sinônimo de respeito independente das discordâncias. E, sobretudo, o respeito às mulheres, as mães, as santas, profanas, castas, as condicionadas.

O dia definitivamente não rendeu, retorno ao lar cabisbaixa. Banho frio e café quente para acalmar a euforia do dia. O cafuné da filha ajuda a apaziguar as mazelas que nos rodeia, o abraço ajuda a esquecer das dores do mundo. A certeza é somente uma: hoje não sou dona do meu próprio destino.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 25 de Março de 2017.

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