Ele - Irreverência Baiana
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Ele

Aquele par de olhos esverdeados quando me encarou pela primeira vez me desmoronou, seguido de um convite para um vinho. Aquele jeito tranquilo para falar sobre amenidades, miudezas e estudos científicos. Outro convite e eu já conseguia imaginar o pós-vinho, nós dois.

Foram dois anos desde o primeiro convite, mas eu fugi. Eu tinha certeza de quando os destinos se tocassem a vida não seria mais a mesma, mas só podemos fugir do destino por um tempo. É inevitável.

Eram aquelas mãos cheias de sardas e os olhos que me transportavam para um lugar que eu não conhecia, mas que me fazia bem e trazia a paz que eu queria para muito perto de mim. Quando ele me olhou bem no fundo dos meus olhos eu suspirei, entendi porque nem toda poesia é escrita, que nem todo amor precisa ser dito. Eu o desejava intensamente e ele nem imaginava a proporção disso tudo.

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Sonhava acordada com os dedos tateando o meu corpo, descendo devagar e suavemente pelas minhas curvas. Apalpando, segurando firme em cada músculo. Eu sonhava com palavras doces e quentes em meu ouvido. No impuro, no profano, na entrega bem feita.

A cada abraço respeitoso é como se minha alma ficasse rodopiando num passo de dança, o meu jeito sem graça depois de cada abraço é por saber que sim, as nossas almas estão esperando o próximo passo no salão.

É o perfume amadeirado que me mata, a gentileza que me arrasta como se estivesse presa a um carro de fórmula um. Malditos carros sem freios. Bendito desejo desvergonhado.

Eu sei que ele também sente tudo isso. Eu sei que uma hora não haverá um pedido para pedir um beijo. Eu sei que a vontade um dia vai vencer a vergonha. Eu sei que aquela barba vai arranhar os meus seios, as minhas costas e as coxas.

Ao dizer adeus preciso olhar no retrovisor ou fechar a porta com delicadeza para absorver toda essa miragem em minha memória. Digo adeus pensando que da próxima vez será em teus lábios que os meus beijos vão se entregar, esperando pelo dia que o sorriso seja um valioso convite para apagar o incêndio com gasolina.

O pior de tudo é que eu tinha consciência de estava hipnotizada. Não sei como tudo se mantinha dentro de um equilíbrio perfeito, desde o tom de sua voz até no jeito de sorrir. São tantos sentidos aguçados em pouco tempo, só falta me carregar inteira para o seu colo, para a sua cama, para os seus destinos.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A região publicado no dia 05 de Novembro de 2016

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