Em mi Camiño - Irreverência Baiana
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Em mi Camiño

Tem uma lição muito importante que só aprendemos quando estamos viajando pelo mundo e sozinhos: a observar. É uma lição que a gente aprende desde muito novo, mas esquecemos e daí tornamos a reaprender  de uma forma mais genuína e significativa.

Diante dos meus olhos tudo o que posso alcançar é apenas natureza. Não há roteiros pré-definidos, não há razões certas, ritmos, motivos… Há somente vontade, querer e instintos aflorados com o sexto sentido.  Não quis tornar itinerários frenéticos, como quem tem sempre um horário a cumprir. O meu único compromisso é sentir: a chuva, o vento, o sol, o cotidiano intrínseco dos animais e a escuta do meu corpo. Mas não se engane esse é um exercício lindo e revelador. Obviamente existe bastante surpresa e excitação, por vezes medo e desespero, – quase sempre substituído por um sorriso que unicamente posso traduzir – como um alce saltitante em minha frente em uma zona de caça.

Lembro bem que assim que bati o martelo com a viagem, um amigo pediu para comprar um livro, tipo guia de bolso sobre o Caminho. Mesmo afirmando que compraria, nunca realizei tal ato. Queria estar somente onde tivesse vontade. E aqui estou, num mini micro Pueblo com apenas nove moradores. O lugar não aparece nem no GPS e observando a noite, exclusivamente um breu sem fim toma conta de tudo. A parte boa é que dentro os 14 dias de caminhada é o lugar onde me sinto mais acolhida desde que abandonei o ponto de partida. O caminho é silencioso, mas aqui é lugar de emudecimentos verbais para escutas corporais e não menos emocionais.

Vivo momentos de infinitas poesias experimentadas, outros momentos tão meus que não me sinto no direito de registrar ou alguns tão zens que fogem da minha habitual hiperatividade e sou capaz de passar longos minutos escutando o rolar da água entre as pedrinhas ou admirar uma cobra atravessando a estrada de chão no chão sagrado.

Hoje não quis trocar uma única palavra, nem os tradicionais “buen camino” que desejamos a algum peregrino que cruza por nós. Hoje eu faço lembrança à música What I Always Wanted de Kittie, e estou (literalmente) dentro do que eu sempre quis. Estou sentindo meu querer, o meu sonho..

Como na música, para sempre, um passo de cada vez.

Juliana Soledade

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