Enlouqueceu, foi? - Irreverência Baiana
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Enlouqueceu, foi?

Olhei para trás e enxerguei dois grandes amores na janela do aeroporto. Sol a pino e já conseguia sentir um frio incalculável na pista de pouso, era tão somente o amor que se distanciava fisicamente, mas emocionalmente intimamente ligados.
Uma viagem demorada é sempre um grande teste, por um lado cria elementos de aproximação antes tão desconhecidos, por outro é a fermentação de saudades em porções generosas. É gerir a urgência, necessidade e a comunhão de uma forma nunca antes conhecida.
Ao me acomodar na poltrona do avião com o corpo inquieto, precisei olhar as nuvens para me acalmar e à medida que o solo se afastava eu só conseguia relembrar dos inúmeros rostos assustados quando pediam explicações sobre a tal viagem dos sonhos. O espanto seguia com uma pergunta indelicada sobre os muitos quilômetros a serem percorridos: “enlouqueceu, foi?”. O sonho quando tratado com seriedade se torna uma rebelião interna, uma chama sagrada que nos impulsiona adiante. Logo nenhum questionamento diminuiria a minha capacidade de sonhar.
Ao arrumar a pequena bagagem e revisar minutos antes de me dirigir até o aeroporto com a mochila nas costas comecei a sentir a leveza de poder traçar o meu próprio destino, sem vínculos pessoais estabelecidos, compromissos com terceiros ou sem convivência cultural e linguística.
Hoje é um tempo de edificar e relativizar, abandonar os caprichos pessoais e a vaidade. Um tempo único de construir a paz neste mundo tão cheio de guerras pessoais. Um tempo para deixar a razão de lado, de ser emoção quando preciso, mas, sobretudo, de ser coração. Um tempo de acreditar sem exigir provas e abraçar a fé sem tantos questionamentos.
“Viver é muito perigoso”, assim disse o Riobaldo, do Guimarães Rosa. Porém, estou convencida de que qualquer dificuldade, em qualquer grau, é contornável pela nossa capacidade e inteligência, pela solidariedade de outros e pelo cuidado invisível e inexplicável que nos acompanha todos os dias aqui e além, creiamos ou não. Peregrinar é um ato de celebrar que pouquíssimos entenderão e que não compensa explicar, apenas sentir.

Juliana Soledade

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