EU CRIANÇA - Irreverência Baiana
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EU CRIANÇA

Há pouco tempo eu era criança, sabia esconder os braços dentro da camisa da escola e dizer que havia perdido. Lembro bem que não gostava de ficar calçada, que tinha uma ansiedade enorme em poder ir correndo no outro dia bem cedo à rua, subir e descer as ladeiras do meu bairro acordando os amigos e puxando a fila de brincadeiras.

Eu amava minhas pelúcias, tratava como se fossem reis. As bonecas tinham hora para dormir, comer e brincar, assim como eu. E se algo não desse certo agarrava-a como uma eterna melhor amiga para me sentir consolada.

Nunca tive brinquedos caros, nunca fiz birra por não ter a casa da barbie, apesar de ter sonhado diuturnamente com ela. Meus pais me ensinaram a dar valor pelo pouco, mostraram o quão significativo era poder viver no mundo infantil, como do Toy Story.

Consigo lembrar de cada aniversário de boneca que fiz, das tantas reclamações de vizinhos por ser uma menina levada e das vezes que fui castigada por me sentir livre. Lembro dos desenhos que marcaram a minha infância, das vezes que briguei por ser o power ranger rosa, a Mili de Chiquititas ou Diana da Caverna do Dragão, mas lembro que também era uma péssima aluna, sempre afrontando regimentos e quebrando regulamentos.

Não participei da geração do medo; fugi de casa várias vezes, retornava pouco tempo depois de ter me aventurado freneticamente pelas ruas da cidade. Não tinha medo do trânsito, de bullying, internet ou de bandido, o policial era sempre bem visto. Respeito e continência quando os encontrava.

Vivi a última geração de liberdade, sem medos de tiros, de assaltos ou de abusos. Uma geração onde quase tudo era permitido. Meu avô que me atirou de bicicleta ladeira abaixo, mas foi também o primeiro a se desesperar quando viu meu joelho partido e tentou colar com vários band aid, muitos anos depois olho para joelho costurado e sorrio pensando: “Era feliz na mesma proporção de danada!”.

Lá em casa, 12 de outubro nunca foi dia das crianças propriamente dito. Vivíamos esse dia intensamente todos os dias, não erámos gratificados com presentes e nem com vontades para suprir ausências. Nesse tempo ainda vivíamos uma vida inteiramente real.

O feriado trazia uma felicidade que ninguém é capaz de me suprimir: a mesa reunida com o almoço farto semelhante ao de domingo feito por minha mãe, cujo aroma e sabor são tão memoráveis que fechando os olhos sou capaz de sentir.

No almoço não tínhamos tempo de lembrar de presente, nessa época o presente mais significativo era nossa pequena família reunida ao redor da mesa de madeira, que também era traduzida como o melhor tempero ali posto: o amor, o respeito e a alegria.

Bola de gude, pique esconde, bandeira, carrinho de rolimã, salada mista. As lembranças me deixam nostálgicas, fui uma criança tão feliz que hoje consigo compreender a idade mental quando me visto de menina.

Juliana Soledade

1Comment
  • Waltinho
    Posted at 07:13h, 13 outubro Responder

    Me fez ficar nostálgico aqui! Não brincava na rua, pois onde morava não dava, mas quando passava as férias em Ilhéus, na casa dos meus avós.. era muito bom! Meus carrinhos, meu videogame (que aliás tenho e jogo até hoje, os carrinhos doei tem uns 04 anos eu acho)… Lembro que brincava muito de cavalinho com meu pai, e não aguentava vê-lo deitado no chão descansando que já voava pra cima das costas dele! Kkkkkkkkk Aaa, ótimos tempos!

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