Eu, peregina! - Irreverência Baiana
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Eu, peregina!

O sonho da caminhada nasce do desequilíbrio. Peregrinar é o ato de refletir na solidão. O equilíbrio é o caminho da segurança, ao mesmo tempo o mais difícil a ser trilhado. O caminho nasce com a tentativa de alinhar a razão e a emoção. A vida não pode ser resumida em sensações ou sentimentos primários, partimos de uma necessidade de equalizar as urgências da humanidade com serenidade, porque há tantas pessoas sendo confusões desnecessárias. E, assumo, não é tarefa fácil transformar os nossos ‘barulhos’ sem entrega, sem paciência.

Transformação carece coragem. Mas a coragem é sempre questionável, principalmente sobre o seu nascimento. Afinal, de onde surge a coragem se não de uma inquietação sem fim dentro de nós? O caminho é nutrir a fé e a razão. Este caminho é muito mais do que um simples pagamento de promessa, é a construção da fé, da minha fé. É a entrega religiosa a si mesmo, é ser deus do próprio destino. É chegar ao fim sendo menos divino e mais humano. É abandonar em cada sono com os pés calejados as armaduras de super-herói.

Atravessar o longo caminho não é buscar mais questionamentos, nem oferecer o ataque, o objetivo é construir as pegadas, a vigília, a dor e as centenas de edificações dogmáticas. É chegar ao fim com dúvidas mais percebidas e infinitamente mais saudáveis. Tão importante quanto crer nas próprias crenças é duvidar e saber refletir sobre as suas inquietações. O peregrino normalmente faz o percurso sozinho, mas não se engane que ele será mais fraco, afinal quanto maior a armadura, mais frágil é o ser que habita. Vestido com roupas leves e confortáveis o peregrino está equipado com o de mais valioso: a fé, a esperança e o amor.

Diria, ainda, que peregrinar é passar a vida a limpo. É a entrega a si mesmo com um olhar frente ao futuro com lições do passado. A vida não pode ser resumida em uma ancora firme e definida. O grande dogma só será entendível quando duvidado e entregue a ele. Não estará completamente compreendido enquanto certeza imutável.

Em alguns dias estarei embarcando para a maior [e possivelmente, melhor] aventura peregrina de uma vida. Serão 40 dias entregue ao Caminho de Santiago de Compostela. Dias em que um sonho deixará de ser sonho e pacientemente será revelado como a maior das realizações enquanto humana. Loucura? Para alguns, talvez! Para mim, uma entrega à fé, espiritualidade com o olhar fixo no milenar caminho que converge em Santiago de Compostela na Espanha.

Saindo da França eu serei o meu próprio guia. E meu espírito, caminhando, será também meu próprio caminho. A peregrinação, em particular, parece relacionar-se a movimentos instintivos do coração humano. A frase latina “ambulare pro Deo”, isto é, “caminhar por Deus”, é tão válida e conhecida para o peregrino muçulmano atraído ao santuário de Ka’ba em Meca, quanto para um budista andando em volta de uma “stupa” ou para o cristão que parte rumo a Santiago de Compostela.

Até lá, eu te convido, me acompanhe nesta aventura!

Ultreya! Suseya!

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 08 de Abril de 2017.

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