Força Chape! - Irreverência Baiana
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Força Chape!

Atravessamos o portal invisível para 2016 com o pé trocado, essa foi a sensação da grande maioria que ainda se recuperava da lama de Mariana. O que aconteceu nesta semana é mais uma fatalidade gravada na história do país, mais uma em que um acidente será anunciado como tragédia, onde os números somados de vidas ceifadas serão multiplicados pelas famílias que o esperavam num retorno prometido. Algumas famílias morreram junto com a ligação informando o fatídico.

Por um momento não tão curto esquecemo-nos dos times, dos rótulos e dos títulos, tudo é de menos importância. O brasileiro tem uma qualidade nata, temos uma condição de fraternidade imbuída. Neste momento não somos Flamengo, Bahia ou Palmeiras, agora somos todos uma grande família Chapecoense, levando o abraço humano e a solidariedade.

A paixão pelo futebol nos apresenta uma perfeita metáfora assimétrica, o estádio cheio vibrando enlouquecidamente pelo extremismo da torcida, ou o mesmo estádio cheio derramando lágrimas de sangue pela derrota, ora pela partida fracassada e agora pelo itinerário incompleto, pela ida sem volta.

O drama vivido nos últimos dias nos mostra a necessidade de se livrar das amarras, âncoras e pesos desnecessários. É um tempo de refletirmos em quem somos, para onde vamos e quem perdoamos. Momento de regar nossos afetos e esquecer os desafetos. Momento de abandonar propositalmente as pedras e se agarrar as flores, e em tempo hábil, entrega-la ao próximo.

Mas além, esses jogadores, jornalistas e tripulantes nos mostra a necessidade de bradar em vida os nossos votos, os nossos abraços. Não houve uma ‘mensagenzinha’ sequer de adeus, nenhuma ligação para marcar o último jantar ou a derradeira troca de beijos apaixonados. Não há, nunca.  Aquele amontado de destroços com corpos jamais saberá a quantidade de homenagens: os minutos de silêncio, o mundo de luto e o futebol unindo povos distintos em irmandade.

Essa ferida aberta em um 29 de novembro de 2016 nos manifesta a dolorosa condição de refletir, desde os corações mais durões. Por um momento que seja pensamos em amar mais, em perdoar mais e em viver efetivamente a vida.

O esporte amanheceu triste, nós acordamos desolados. O mundo perplexo entre bombas e afagos despertou em silêncio, assustado por tamanha tragédia. Esse acontecido só nos incomoda profundamente pela empatia que carregamos, a certeza da leveza da vida de jovens, da novidade da paternidade recente. Isso dói. E apesar da dor que sintonizamos, tenho a certeza que estamos dormindo mais humanos, mais agradecidos e com o desejo de continuar exatamente assim pelos próximos dias.

Juliana Soledade

Publicação produzida para o Jornal A Região publicada no dia 03 de Dezembro de 2016

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