Fui demitida - Irreverência Baiana
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Fui demitida

Foram muitos dias num desafio de ser pessoa, ou mais, um desafio de ser humana. Recordo-me bem quando iniciei os primeiros passos no Estranho Caminho de Santiago, a inexperiência, o medo, a angústia de quem enfrentaria uma nova gênese, e mais, de quem sonhava com esse momento.

O processo de travessia em terras desconhecidas me trazia uma curiosidade inenarrável. Aceitei uma liberdade que apenas necessitava do meu sim. E logo nos passos mais significativos de uma longa estrada precisei compreender todos os signos que o envolviam, as renúncias, reclusão e fé.

Se autoconhecer é uma condição que depende tão somente de uma única figura, se permitir é uma tarefa que consiste em lutas diárias e muito dolorosas. Se conhecer dói. Enxergar às mágoas, as omissões, as partilhas não feitas. Saber quem nós somos sem máscaras é se colocar diante os próprios fantasmas.

Ao concluir a minha jornada eu me reapresentei a várias pessoas que entendiam a mensagem da peregrinação. A gênese aconteceu, os rumos mudaram e as velas foram devidamente ajustadas. O título do meu segundo livro faz mais sentido agora: “Despedidas de mim”. Ou talvez tenha sido um grande reencontro de mim mesma.

Agora, entre planilhas e documentos me sinto perdida com uma demissão compulsória. Agora, eu voltei a ser quem eu era antes de partir, mesmas responsabilidades, agonias, contas, chefe, obrigações… Nem o governo mudou mesmo diante falcatrua.

Dentro de mim eu sei que jamais serei a mesma. O Caminho ecoa diuturnamente enquanto eu tento apaziguar me sobrecarregando de lembranças. Essa aventura me ensinou a ter fé na vida. Essa sem dúvidas é a maior lição que eu continuo carregando.

Como é comum abraçar as crises, cá estou eu abraçada na crise pós-demissão. Fui demitida da condição de peregrina, e ainda olhando os materiais de ‘trabalho’: mochila, jaqueta, botas, papete, bastões… Sinto-me deslocada sem saber onde colocar todos os equipamentos. Parece-me bem que só cabem no meu corpo.

 

Juliana Soledade

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