Houve um tempo - Irreverência Baiana
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Houve um tempo

Claro que já houve o tempo que eu esperava a sua ligação, a sua mensagem ou sinal de fumaça. Torcia para que isso acontecesse, era sinal de que sentia a minha falta. E eu vibrava alegremente em cada vez que isso acontecia.

Esperava você com um café delicioso posto na mesa ou com um jantar elaborado e o sorriso no rosto. Não gostava de ser recebido com ainda mais problemas. Lembrava-me dos seus gostos peculiares nos corredores do mercado e sempre pensava agradar. Nem sempre você se contentava, é verdade, mas eu tentava. Punha as melhores roupas de cama, regulava a temperatura do ar a seu gosto, evitava qualquer pelo de gato dentro do quarto, às vezes evitava o meu próprio animal.

Recusava alguns trabalhos freelances, você dizia que alguém estava de olho em mim, eu não percebia. “Homens são discretos” e “abre o olho”, você também dizia. Por vezes deixava de atender clientes antigos, afinal eles queriam levar vantagem, mesmo nunca tendo acontecido antes.

Você terminou comigo depois de me ver conversando numa distância segura com um amigo de infância. Disse que também estava tomando essa decisão porque viu um e-mail respeitoso que enviei para meu professor e pelo novo contato no celular, afinal era nome de mulher, mas garantiu que eu estava despistando. Respeitei sua sentença e não olhei para trás.

Outro dia você ligou e três chamadas não atendidas. Você me mandou uma mensagem dizendo que havia sonhado

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Juliana Soledade é especialista em Direito Processual Civil e Direito do trabalho, escritora, empresária e blogueira. Escreve aos sábados para o Jornal A Região.

comigo, bela maneira de provocar a curiosidade para que eu perguntasse sobre o sonho. Não perguntei, mandei um legalzinho. Foi suficiente. Vi seu carro passar perto do meu, não buzinei e nem fiz jogo de farol. Não sorri, ao contrário, fiz uma carranca horrível.

Mandou mensagem com foto do filho que antes eu me derretia. Mandou flores com cartão alegando saudades, atirei o cartão no canto e reguei as flores. Passou a curtir e comentar todos os meus passos nas redes sociais. Elogios, palavras carinhosas e abraços apertados ao me encontrar por sorte (ou azar) do destino.

Lutei com tantas forças para que o sentimento bom e apaixonado não acabasse, mas você insistiu, magoou meu íntimo, criou dores, lembrou-se de amar quando não era mais recíproco e no coração, meu bem, ninguém manda, ninguém obriga. Aqui sou toda submissa, sou obediente.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A região publicado no dia 19 de Novembro de 2016

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