I - Irreverência Baiana
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I

Você não vai se lembrar do jeito que eu estava dormindo quando a minha bolsa rompeu em um sete de Julho às duas da manhã, eu não entrei em trabalho de parto, e demorei muito tempo a entender que você estava sinalizando que queria nos conhecer. Seu pai que anunciou que o líquido na cama era o que te permitia nadar em minha barriga. Ele pediu que eu me acalmasse e caso sentisse dor me levaria ao hospital. Eu fiquei desesperada, mas fiquei animada em saber que em pouco tempo a teria em meus braços. Mesmo sem dor fomos ao hospital, e sussurrava a cada cinco minutos: “Nós vamos conseguir”.
Nosso médico nos avaliou, e depois de alguns exames disse que ainda não era o momento de te receber em meus braços. Ele nos monitorou por uma semana, enquanto isso fiquei ansiosa, segurando a vontade e a esperança em te conhecer como filha.
Eram 22h41min horas de uma sexta-feira, quando no dia 14 de Julho de 2006 você chegou. Tive medo de entrar no centro cirúrgico e de encarar as agulhas. Você não vai me lembrar do jeito que me olhou assim que nasceu, ou a forma que te tiraram abruptamente da sala de parto. Eu mal lhe vi, e exaltei com os braços amarrados. Os seus avós maternos logo lhe conheceram. Vovô fez questão de contar cada um dos dedos, das orelhas, de cada um dos seus membros para logo em seguida me acalmar. Vovó cuidou da mamãe a noite inteira, suportou o meu choro de saudade, mesmo sem lhe conhecer. Eu precisava de você em meus braços.
Você precisou de cuidados nas primeiras horas de vida, por conta de um cordão enrolado no pescoço. Ao amanhecer me levaram para lhe tomar como a minha filha. O curto momento foi suficiente para registrar como um filme em minha memória. As primeiras palavras que te disse foram: “eu te devo o meu amor e o meu cuidado”. O resto eu não lembro, a emoção me tomou e fiquei desacordada por um longo período, enlouquecendo a família e os amigos que me enxergavam pelo vidro do berçário. Mais de vinte horas depois é que eu pude lhe segurar pela primeira vez, e confesso, foi mágico. Ofereci o meu alimento, o meu colo, sobretudo o amor que ninguém me explicou como era.

Eu tentei te aquecer, queria que se sentisse amada e protegida, desde o primeiro momento. Dentro de mim sabia que estava segura. Sei das vezes que ficou confusa, dos períodos que chorei e que senti medo o cordão umbilical nos mantém conectada desde a sua gênese. E em todas as ocasiões que pedi ajuda foi para lhe preservar. Você percebeu as vezes que padeci, que a saúde oscilou e de todos os meus passos, até aqueles que só pediam calmaria no hospital.

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