Ida para o céu - Irreverência Baiana
737
post-template-default,single,single-post,postid-737,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-content-sidebar-responsive,transparent_content,qode-theme-ver-1.0

Ida para o céu

EU MORRI

Ninguém, absolutamente ninguém vai a algum lugar se não estiver em sua própria companhia. Quinto dia de caminhada e já aconteceram coisas absurdas e completamente fora de roteiro. No dia em que cheguei a Saint Jean Pied de Port acreditava que já tinha definido mentalmente a minha programação, saí do Brasil com pouquíssimos rabiscos, nunca me importei em conhecer afinco as cidades e vilarejos pelas quais passaria. Isso tem sido bom, estou me surpreendendo em lugar em que encontro moradores, que caminho, que vivo, como também tem sido péssimo, por não saber o que encontraria precisei caminhar o dobro da expectativa diária.

Muitas bolhas já fazem parte dos meus pés, vivemos quase que uma relação de amor e ódio. Ontem precisei furar algumas delas que estavam nos dedos e entre eles, definitivamente não tenho qualquer tipo de proximidade com a área da saúde, segurar uma agulha com linha, espetar o dedo calejado e atravessar a bolha com as mãos tremendo não foi uma divertida tarefa. Não sei dizer qual das mãos tremiam mais, se a que segurava o pé ou que invadiu cada uma das bolhas. Após o furo, alivio. Os pés passam a pisar com mais firmeza e tranquilidade. A bolha nos obriga a pisar diferente e consequentemente errado, com a dor buscamos uma pisada alternativa para continuar caminhando. Minha bacia que o diga, hoje ela sinalizou algo errado.

Saí de casa com uma sensação de liberdade, ao tentar enrolar no francês, não tive medo, o sorriso no rosto das pessoas com as minhas tentativas quase que frustradas me faziam continuar dentro do meu sonho. O meu espanhol um pouco mais compreensível do que o francês traziam calmaria e me deixavam seguir como uma adolescente com um plano de fuga infalível.

Ao me despedir de Puente la Reina na travessia da ponte que faz jus ao nome da cidade, uma alegria me dominava e me fazia seguir com dois ovos mexidos e café quentinho feito por mim na cozinha do albergue. Munida de duas bananas e bastante água, cortei o vilarejo sorridente e agradecia por aquele lugar existir por minuto. Logo depois da ponte, cortei uma trilha apaixonante. Caminhava devagar não tinha condições de ser apressada. Isso também tem sido bom, consigo me entregar ao caminho com mais dedicação. Esqueci das fotografias até Estella, precisava me concentrar à natureza para esquecer das dores e hoje foi o dia mais difícil.

Os vilarejos parecem perto, os nossos olhos alcançam, mas não sabem calcular distância. Nos enganam descaradamente. Algumas subidas me fizeram chorar de dor, de muita dor. Em determinado ponto, parei, refiz alguns curativos e me alonguei. Estou com uma dor muito grande no tendão de Aquiles, folguei um pouco mais a bota, mas nada resolve. Caminhei mancando como um cachorro atropelado, um peregrino me ofereceu remédio e ajudou com uma massagem.

Desde quando passei a ver esse peregrino durante o caminho tinha um olhar ‘torto’, ele é aquele típico peregrino exótico, com um frio congelante encontrei ele de bermuda bebendo Chopp, todo tatuado e cheio de piercing. Claro, eu cheia de preconceitos com o careca que havia tatuado até a cabeça precisava me redimir com o americano. Assim que ele encostou em mim, fiquei em alerta, afinal, estávamos sozinhos numa trilha. E ainda bem que ele estava exatamente naquela trilha, a sua água geladinha e o remédio me ajudaram com mais de 30 quilômetros que ainda viriam. Antes de acenar “bye, bye!”, pedi desculpas sem explicar o motivo.  Escutei um “I understand you”. Insisti no pedido de desculpas e ele seguiu viagem.

O silêncio então passou a machucar, apenas a minha pisada se ouvia, depois passei a escutar a respiração, em seguida a água descendo pela garganta. Um silêncio enlouquecedor que intensificava a minha dor. Escolhi uma música animada e saí cantando sem ritmo e sem tom… Dois peregrinos quiseram saber quem cantava, Ivete Sangalo da minha Bahia já estava contagiando os Irlandeses. Touché!

Poucos passos e desemboquei em Estella, minha cara de dor traduzia a cara da cidade. Achei repugnante, não consigo explicações porque não me agradou. Talvez o cheiro, a ponte estranha, o movimento, não sei… Meu coração disse não e preferi escutá-lo, fiz uma rápida parada técnica e resolvi seguir, ainda era cedo, uma hora da tarde. Logo na saída da cidade vi peregrinos voltando, estranhei, e continuei batendo os meus bastões no chão para chegar num vilarejo a oito quilômetros dali.

Na primeira cidadezinha que eu encontrei após Estella o cansaço começou a pesar, mas precisava continuar rumo ao destino escolhido, afinal quem sou eu para voltar atrás das minhas decisões. Encontrei um bar cheio em rua quase deserta, deve ser bom, pensei e adentrei desejando uma Coca-Cola bem gelada. Me sentia no deserto e sabia que aquela coca me animaria para os próximos quilômetros.

Ao me aproximar do bar, todos me olhavam, todos. Comecei a ficar envergonhada, mesmo assim entrei e pedi minha tão esperada Coca-Cola, percebi que era observada dos pés à cabeça e aquilo me encabulou. Estaria fedida, feia ou mal vestida? Pensei que estavam acostumados com peregrinos passando por essa rota ou estaria eu fora de rota?

Um euro custou a garrafinha pequena, catei a moeda e paguei, esperei a atendente abrir a garrafinha que parecia música aos ouvidos. Me via em câmara lenta direcionando meu braço até a garrafa, a minha mão apertando entre os meus dedos, a mente dizia bebe logo, faz tanto tempo que você bebeu um refrigerante e antes de reconhecer o sabor, girei o rosto e olhei as pessoas que estavam ali, todas me encaravam, TODAS! Olhei para o meu corpo, meus pés e antes de qualquer comentário que pudesse produzir sobre mim mesma, abandonei a garrafa onde peguei e saí sem olhar para trás.

Caminhei por vários minutos chorando, estaria eu então na condição e aparência de mendiga?  Encontrei uma fonte e parei, enxuguei as lágrimas, joguei um pouco de água no rosto, bebi um pouco de vinho e continuei a caminhar num caminho que não tinha fim.

Já me sentia arrependida, nada mais fazia sentido. O preconceito que cometi, a cidade que julguei não me acolher, o vexame que passei, os passos que não param. Os pássaros que cantando reproduziam uma cantoria negativa e o calor do deserto reinava naquela tarde. No vilarejo que se abriu entre os meus olhos, um pontinho de felicidade. Estava perto de acabar a jornada daquele dia! A fome já começava a reclamar, como se somente a água não fizesse mais efeito e eu tivesse esgotado os ovos mexidos em meu estômago.

Um vilarejo significa a possibilidade de beber a Coca-Cola, caminhei desejando beber e me vingar dos olhares que me repugnavam naquele bar. Alguns passos e encontrei uma máquina com várias bebidas por dois euros. Brilho nos olhos e lentamente a garrafinha ia descendo pela máquina dos sonhos e pimba, a Coca-Cola era minha, só minha! Bebi como se fosse a última gota de água no deserto. Que delícia!

Desejo saciado e os pés estavam molhados. Encostei na porta de uma igreja de forma que pudesse vigiar a máquina e agradecer a cada vez que olhava para ela. Tirei as botas e surpresa, as meias estavam completamente encharcadas, mas não de suor, e sim de sangue. Apavorada joguei um pouco de água para descobrir de onde saía o sangue e enxuguei com uma camisa suja da mochila. Uma peregrina ao ver meu desespero me ajudou a cuidar dos pés, me ofereceu fitas de gel com antibiótico para colocar nas feridas, mas já não conseguia calçar as botas, precisei calçar a havaianas. Os pés estavam inchados e eu começava a rezar para chegar a VillaMayor Monjardim. Senti fraqueza e comi uma banana que tinha guardada. Uma subida difícil até esse vilarejo, pouquíssimas pessoas e uma poeira subia a cada pisada. Um clima tão seco que meu nariz também começou a sangrar.

Pisar em VillaMayor Monjardim foi um alivio, vilarejo muito menor do que eu pensava que de tão pequeno todas as vagas de todos os albergues já estava lotados. Não tinha escolha, precisava seguir. E tudo parecia um castigo muito grande. Maldita hora que resolvi escutar esse coração.

Comecei a descer rumo a Los Arcos, sem saber que lá era o destino. Estava confusa, não via mais nenhum peregrino, não via nenhum trabalhador nas plantações de milho. Nada. Estava só, completamente só até mesmo porque nessa hora Deus resolveu tirar um cochilo e me abandonou em um lugar que nunca tinha visto, nem mesmo no sonho.

Quatro horas da tarde, os pés continuavam sangrando e a sandália começava a assar os pés. Já não sabia o que doía mais no meu corpo: se a fome que resmungava e deixava a barriga presa às costas, se os pés dilacerados, a bacia que me deixava mancando feito um cachorro atropelado, a cabeça que começava a girar ou a mente tão equivocada neste dia quente de primavera.

Uma fonte de água foi o segundo presente neste dia, o primeiro foi a máquina de Coca-Cola. Coloquei os pés por longos minutos na água fria e calcei a bota. Não fazia ideia de quanto tempo ainda demoraria para chegar até Los Arcos, tudo não parecia ter fim. Não havia outro vilarejo, ponto de apoio, absolutamente nenhum lugar que pudesse pedir ajuda.

Chorando de dor, iniciei uma marcha militar. As horas corriam e eu precisava comer e repousar, sentia a necessidade de um banho para me demitir da função de mendiga. Não conseguia me incentivar para continuar caminhando, estava fraca e Deus não acordava de sua sesta.

A fraqueza me derrubou as oito e meia da noite, ainda tinha a última banana na mochila, mas como encararia a noite escura sem nenhuma comida? Resolvi guardar e tentar me acalmar para pensar na também última possibilidade: dormir ali, no meio do nada, numa região de caça e no frio que estava a me aguardar.

Sem esperar, comecei a escutar passos, estava salva! O barulho dos passos arrastando um cajado me acalmou, ganhei forças e levantei a cabeça para pedir ajuda, levantando o olhar e procurando em toda campo de visão não havia definitivamente ninguém. NINGUÉM!

As suas passadas ritmadas continuavam e eu tentada aceitar o que se aproximava de mim. Sim, era a morte! Eu permanecia tranquila, havia cumprido a minha missão e o meu destino me carregou até lá, entre tudo o que eu senti em um único dia estava grata a tudo.

Saquei o telefone da mochila e fiz uma ligação rápida: “Oi, preciso pedir um favor. Ajude meu pai a cuidar de minha filha, a morte chegou para mim. Preciso ir! Obrigada por tudo”. Imediatamente gravei um vídeo agradecendo e explicando quem era, desbloqueei o celular e ajoelhei.

Silenciosamente acordei Deus, com as mãos unidas feito criança, disparei: “Deus, não se esqueça de minha pequenina Maria, proteja-a de todo e qualquer mal que possa existir, só te peço para preservar os olhinhos vivos amendoados e o coração maior que o corpo que ela carrega, mas já imaginou o trabalho que será para me levar para o Brasil num caixão? Não precisa, me deixe por aqui. Estou em paz”

Grande Arquiteto do universo deve ter tomado um susto sem tamanho com meu pedido, antes de abrir os olhos novamente, os passos cessaram. Provavelmente diante a mim, a morte preparada a sua foice para me atacar. Não havia mais dor ou medo, estava pronta.

Em fração de segundos um carro surgiu, com o rosto no chão empoeirado levantei os olhos e dois senhores se aproximaram, falaram algo que não compreendi e me pegaram no colo. O idioma dos anjos é diferente, pensei. Tiraram a mochila das minhas costas e me levaram com facilidade até o carro. Uma ida tranquila para o céu, continuei pensando.

Não conseguia falar nada, chorava por ver o mundo indo embora. Chorava pelo adeus inesperado. Chorava sem tanta clareza nos motivos, apenas chorava. Os dois senhores, completamente tranquilos, me pediam calma, e em espanhol diziam que eu estava salva.

– Niña, estás salva. ¡Calma! – Repetidas vezes com as mãos em minha perna.

Eu não conseguia raciocinar, estava muito fraca, apenas agradecia aos anjos pela viagem segura e entrei em sono profundo. Acordei dentro do chuveiro com uma água quente me molhando. Somente com as roupas de baixo e acomodada num banco de madeira, a senhora lavava os meus cabelos e cantava baixinho uma música. Ao acordar com o corpo molhado, estendi os meus braços e abracei na cintura a senhora, com um afago me disse que estava tudo bem.

Aos poucos comecei a compreender o que havia acontecido, de fato fui salva, mas por anjos humanos, demasiadamente humanos. Depois do banho, café quentinho e alguns biscoitos que fui obrigada a comer. Uma tremedeira não me deixava segurar a xícara e foi preciso que me dessem na boca. Estava rodeada de afeto com pessoas que não imaginava quem eram, mas estavam por mim.

Já consciente descobri que fui resgatada há três quilômetros de Los Arcos. No celular, um registro quarenta e seis quilômetros me separam da cidade que parti. Dois ovos e uma banana foi tudo o que comi durante toda a caminhada. Floren e Gema são os nomes dos dois anjos que partiram após um afetuoso abraço e não consegui maiores contatos e são desconhecidos aqui na cidade. Deixei uma carta para caso eles reapareçam.

De tudo, duas certeza: a minha força que me leva é a mesma me machuca. E eu ainda devo estar no céu.

*Parada Técnica: ida ao banheiro

Juliana Soledade

No Comments

Post A Comment