III - Irreverência Baiana
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III

Os seus primeiros momentos ficaram registrados, desde o anúncio que já habitava em minha barriga. Haverá um livro do bebê para chamar de seu, que logo será esquecido em meio a tantos afazeres. Não haverá álbum de fotografia personalizado, somente muitas fotos, alguns vídeos e muitos registros em nossa memória.

No nosso caminho não houve guias práticos de bebê ou uma pequena biblioteca para resolver os meus temores ao cuidar de você, também não dei muita importância para as dicas que me ofertavam de como cuidar de um neném. Eu realmente sempre fui um pouco rebelde, preferia escutar os seus sinais e deixava a intuição me seguir. Deu certo! Nunca passamos grandes sufocos, com o passar das linhas vai entender o quanto é uma criança tranquila e saudável.

Filha é arriscado dizer que serei uma boa mãe, posso afirmar que a sua história começou a ser escrita, quem escreve é você. Vez ou outra seguro a sua mão para ajudar a transcrever para o papel a tinta da caneta, mas você conduzirá os seus passos. Com o tempo aprenderá que desde a concepção estamos num único curso, o de ida, cairemos em algumas ocasiões, pularemos em outras, criaremos pontes e por vezes até muralhas. Só não conseguiremos reescrever aquilo que já vivemos.

Hoje posso dizer que somos uma família, eu, seu pai e você. Não consigo pronunciar o seu nome sem me comover, em silêncio aprecio os seus traços e afirmo solenemente que eu te gerei com o sangue do meu sangue, com a força que habitava em mim, com a energia da verdade e da vontade. Eu te desejava desde quando era uma garotinha e brincava de boneca.

Maria este seu nome será pronunciado vastamente, não me cansarei nenhum segundo de repeti-lo. Te imaginei forte, assim como a mãe de Jesus, a sua cruz será bem mais leve do que ela viu o filho carregar, eu te garanto.

Será a minha pronúncia enquanto estiver no meu colo no início de seus dias que reconhecerá a quem te pariu, e nos seus quase dez anos de vida perceberá que a entonação, assim como o paraíso será diferente. A nossa evolução cabem cobranças, a minha voz configurará altivez, fragilidade, paciência, mas nunca abandono. Não da minha parte.

Você nasceu pequenina, 49 centímetros, enorme em nossas vidas. Poderia caber numa caixa de sapatos. As roupas ficaram grandes, no entanto logo foram se perdendo. Ao te oferecer o meu alimento, entre leite e sangue do mamilo dilacerado, foi se tornando forte e desenvolvida. Aos poucos as roupas e sapatinhos que ficavam sobrando em seu corpo precisaram ser guardados numa caixa para eu recordar sempre que preciso do seu corpo franzino.

Com o passar dos dias, passei a absorver o ritmo de sua respiração, de sua fome, do seu coração e do seu choro. A vida daqueles que te rodeavam tomaram outros ritmos. Poucas pessoas acompanhavam de perto o seu desenvolvimento, os dedos enumeram cada um deles: vovô Raimundo que gosta de ser chamado de tio, vovó Ana Paula, seu único bisavô Jorge, seu pai e sua dinda Gillis. As outras pessoas estavam, mas não permaneciam ligadas intimamente a sua vida.

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