Involução - Irreverência Baiana
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Involução

Entramos em curto, não dá para continuar atualizando todas as redes sociais em tempo simultâneo. Antes eram social-media-confusionsomente os finados Mirc e o ICQ, que uniam gentes de todas as tribos. Bate papo da uol e MSN. Cada um em seu tempo, nada misturado, não existia overdose de informações. Primeiro que a internet era absurdamente lenta, depois que tinham os dias e horários pré-estabelecidos (de 00:00 às 06:00 e aos finais de semana). Foi uma febre quando o Orkut surgiu: novidades, comunidades úteis e bem interessantes, informações partilhadas e um limite de 12 fotos no álbum. Era a autoestima inflada com o perfil lotado e os depoimentos que deviam permanecer no topo, o cantinho mais sentimental. Quantas confusões por quem visitou o perfil e quantos egos inchados com isso também? Muitos!

Num processo de evolução constante, chegaram o Facebook, Twitter, Instagram, SnapChat, Messenger, Whatsaap. Você tenta manter tudo em dia, ledo engano. Só vai aparecer por lá em brechas esporádicas, mas vai ter muita vontade de continuar postando, atualizando e compartilhando. A vida vira uma avalanche de informações e de decisões rápidas e precisas. É o filho que chora e o chefe que exige metas. A conta bancárias que alega o limite do cheque especial e o namorado que pede um pouco mais de atenção.

A espera no médico, na fila do pão, do banco e do avião, será com o smartphone em mãos: respondendo mensagens, ignorando xavecos e pagando uma conta pelo internet banking. Os abraços apertados e olho no olho foi pacientemente trocado por “estou com saudades”, “quero te vê”, “você sumiu, hein?”. Memes animados e sarcásticos com qualquer evento novo, ninguém passa despercebido, de Obama a Paula Fernandes.

Casais se tornaram agentes da FBI, qualquer passo é milimetricamente descoberto. É GPS personificado, é uma desconfiança qualquer, uma mensagem suspeita e pronto! Já sabemos o caminho, os passos e todo o plano são rapidamente arquitetados mentalmente.

As redes sociais não chegaram para destruir relacionamentos. Não mesmo. Os olhares sempre foram trocados, os destinos já cansaram de unir os visivelmente separados, e as rotas sempre se encontraram por aí. Antes só não tínhamos a ficha completa, as informações em tempo real e a certeza de algum tipo de ligação.

Vivemos numa montanha russa. A cada dia uma nova emoção, uma nova percepção. Um amigo que foi até Abu Dhabi, outro que passou um final de semana em um resort paradisíaco, um casal que subiu no altar numa paisagem de novela. Acompanhar vidas demanda muita energia.

Cada foto tem que vim carregada de efeitos e melhoramentos, a frase tem que ser de impacto, a vida tem que quer supervalorizada. Problemas? Nenhum! Estamos numa fase de preocupação em projetar um cenário de vida perfeita. Queremos likes, muitos. Desejos iguais a cartão de crédito: sem limites! O único problema é quando a aprovação dos outros se tornam mais importantes do que a auto aprovação e quando isso acontece é momento de repensar sobre a nossa felicidade. E esse texto é uma possibilidade para questionamentos, não conclusões.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 22 de Outubro de 2016.

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