Não me obrigue - Irreverência Baiana
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Não me obrigue

Não me obrigue a falar que te amo quando esse sentimento não existir dentro de mim. Não me faça sair do conforto de minha cama quentinha quando eu não quiser. Não insista, não tente me impulsionar com motivos sem graça ou desnecessários.

Não me obrigue a ter atitudes contrarias a minha vontade. Não determine perfeição onde não existe, e que na verdade, nunca irá existir. Não me obrigue a te chamar pelo apelido, pelo diminutivo. Não vou ser amiga íntima de qualquer jeito, preciso de conquista, partilha e confiança.

Não me obrigue entrar os padrões universais impostos pelas mídias, pela sociedade, pelo vizinho de sua tia. Pare de tentar varrer os cantinhos de meu templo se você não os conhece o meu lar. Pare de violentar os meus planos, os meus sorrisos… Poupe os meus nãos.

Não quero fingir que está tudo bem, nem forçar sorriso. Entenda, eu não sei abraçar quando não quero. Vou desviar o olhar, vou mexer no celular, vou dar desculpas, mas não, não irei abraçar caso não queria.

Não vou fingir que é meu amigo caso não seja, não vou dizer “eu te amo” como se fosse um “olá”. Não sei mergulhar no raso,     amor é algo sério, ou se mergulha com os equipamentos de segurança ou então se morre afogado. Simples!

Vou adorar viajar, vou adorar me guardar. Ambígua, mas nunca indecisa. No mundo sempre lugares novos, e em mim pelo mesmo motivo. Então não insista para eu ficar, não me faça ir sem vontade.

Não adianta dizer que devo usar saia, vestido ou biquíni. Vou contrariar. Vou usar o que o espelho concorda. Vou guardar moedas, cartões postais e cartas de ex-amores. Não se incomode, a casa é minha. Não vou chorar para fazer drama, não vou sair querendo ficar.

Não vou disputar presença, atenção ou amizade. Entra quem quer ficar, e fica quem eu quero que fique. Não me peça explicações. Posso ser um excelente veneno ou antídoto.

A cada vez que sou obrigada a agradar alguém unilateralmente, serei machucada. A cada sim sem escolha, serei cortada por dentro. E será difícil de estancar o que sangrará aqui dentro.

Quando sorrio com a alma mostro todos os dentes, meus abraços são feitos esmagos. Meu amor é intenso e verdadeiro e minha alma pode não lhe agradar. Desculpas, minha vida não foi feita para você, foi feita para mim, desse jeitinho manso e enérgico. Possessiva e autoritária. Um santuário que posso chamar de meu, encarnar eu. Sempre. Do acordar ao adormecer. Não baixo guarda, ser pacífico não significa ser passivo.

Eu vou voar, quando eu quiser, do jeito que eu quiser e sempre que bem entender. Aqui tudo é movimento.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicada no dia 04 de Junho de 2016

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