Precoce - Irreverência Baiana
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Precoce

 

Precoce, fui classificada assim outro dia. Precoce nas experiências, nas dores, nos amores. Precoce no começo e no fim dos casamentos, da gestação e também das realizações. Enquanto eu ouvia calada a delimitação que me impunha uma fala à frente seguia com inúmeros conceitos que somente a voz da experiência conhecia. Eu apenas oferecia um sorriso amarelo.

Precoce nas curvas, na troca do namorado, na decisão importante. “determinada”, disse eu. “Determinada na entrega”, completei. “Precoce não é imaturidade”, disse ele. Seguiu afirmando que fui “precoce na perda do medo”. Interrompi, claro, e completei “medo é limitador”.

O café começava a esfriar e eu continuava a ouvir sobre a minha vida prematura. Mania essa do outro escarafunchar a nossa existência sem permissão. Por um longo instante mantive-me imóvel. Quanta insanidade nesta necessidade em definir o outro. Começava a ficar incomodada e neste tempo já havia abandonado o café, bem como a obrigação de sorrir.

Coitado, pensei muda. Mal sabe das inquietações que agitam esse ser de 1 metro e 66 centímetros de altura. Jamais será capaz de conceber que a prematura é muito mais realizada do que qualquer ‘menino’ de 80 anos por aí. E isso envolve as nossas escolhas, percalços e infindas lições que o caminho nos mostra.

A visão do outro sempre nos inquieta. É uma avalanche rolando nos nossos olhos – e na memória –, sobre quem fomos, de onde vimos e onde estamos. É difícil fazer o outro calçar os nossos sapatos e percorrer o nosso caminho, em meio aos calos, feridas e as chuvas torrenciais que já levamos.

Talvez o que ainda mais me incomode seja o julgamento indistinto.  Questionam se viajamos sozinhas, se estamos com um parceiro, se terminamos o doutorado e se já temos casa própria. Faz questão de lembrar o quanto que a liberdade é assustadora, mas livrar-se das amarras, do que aperta, prende e machuca é abrir-se para um novo mundo. O nosso mundo. E quando encontramos o que bem de si próprio oferece, o universo concede um sorriso malicioso. Touché!

Sempre é hora de novos tempos e de seguir em frente.

Juliana Soledade

Crônica produzida para o Jornal A Região publicado no dia 14 de Janeiro de 2017.

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