Vovô - Irreverência Baiana
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Foto: Suelem Pires

Vovô

Após a morte de vovô e todo o processo de quarentena que atravessei, hoje foi a primeira vez que eu estive no local onde o seu corpo foi repousado. E também a primeira vez que eu pude compreender nitidamente a morte dele. No início do ano a ficha caiu, a realidade se fez presente quando percebi que ele não estava fazendo uma viagem ou estava numa brincadeira de esconde-esconde comigo. Por mais doído que foram as outras tentativas de afirmações, nesta eu estava serena. Creio que precisava desse diagnóstico comigo mesma.

Durante o meu período de recuperação da sua pós-morte, eu surtei, inúmeras vezes tentei escavar o seu túmulo com minhas próprias mãos, flagelada e abandonada retornava para minha casa frustrada. Ou ainda esperei que ele cruzasse a porta de casa incontável vezes com os braços abertos.
Hoje eu entendo perfeitamente sobre a morte de vovô. E somente o que me resta são as lembranças e saudades conscientes, sem surtos e sem loucuras. Vô era meu porto, de repente ele se transformou em navio e partiu, sem jogar o lenço, sem acenar adeus. Abruptamente o seu cheiro de amor foi enterrado, debaixo daqueles sete palmos devidamente calculados.

Ele não tinha apenas cheiro de amor, ele dispunha dos gestos mais delicados comigo. Era um pai com açúcar. Era quem me abraçava e permitia que eu sentasse em seu colo feito uma criança mimada. Foi quem me ensinou a andar de bicicleta atirando-me ladeira abaixo. Era quem falava de amor com os olhos, com o olho que via e com aquele que não via também.

Vovô tinha mãos delicadas, e tinha carinho para dar em cada um dos seus dedos. Ele tinha gestos cativantes, e palavras certeiras. Vovô era a minha cura e salvação. Mas no agora eu digo, dolorosamente real ele se foi. E só então, com o peito aquecido de lembranças, percebo o tamanho de minha gratidão e devoção.

Olhos fechados, cicatriz regenerada, três passos à frente e adeus.

Juliana Soledade

 

Publicado no Jornal A região no dia 29 de Outubro de 2016

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